Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007

AS ANDORINHAS DO ZOZÓ DA ZEZÉ

 
Foi reclamar no Instituto Ambiental.
Entrou sem bater e já foi rebocando o fiscal para um canto da sala. E de voz sumida, jogada na concha da mão:
- Isso não está certo, seu Paulo. Qual deve ser meu procedimento para acabar com esses passarinhos?
Olhando de um lado para outro, o fiscal puxou a conversa para a orelha que estava mais longe da boca do reclamante:
- Além de tomar uma multa em alto relevo, para quê o senhor quer matar passarinho?
Zozó da Zezé esticou o beiço para a janela e, olhando para fora, suplicou:
- Vistoria aquilo!
O sol estava mais para noite que para dia. Um negrume escurecia o horizonte da pequena Campo Mourão e, conforme os segundos passavam, agigantava-se para cima da cidade.
Cada uma beliscando um pedaço do céu, largando asa para tudo que era lado, o bando de andorinhas passou rasante por sobre a praça da matriz, tirando lascas dos beirais das casas. Subiu bem alto e retornou como uma flecha, enfiando-se por entre as folhas das árvores. Sumiu.
De testemunho, só aquela gritaria de passarinhos. Aquele conhecido vozerio e, depois, um silêncio sepulcral. Dormiram.
As andorinhas haviam chegado. Vindas do sul, mais de 200.000 delas invernavam por ali, todos os anos, para alegria da criançada e dos adultos que não haviam deixado de sê-lo.
- Viu isso, seu Paulo? – perguntou com voz de choro.
- Quiéquitem?
- Quiéquitem?! O senhor sabe me dizer qual é o meu negócio? Do que é que eu vivo? De onde tiro o pão para meus filhos?
- Venda de agrotóxicos. Comércio de veneno.
- E não sabe que quando estas aves chegam por aqui elas almoçam e jantam os insetos das lavouras?
- Isso é mau?
- Para o meu negócio é o fim! – afundou a mão no peito.
- Quibeleza! Quer dizer que as andorinhas, por comerem as pragas das lavouras, atrapalham seus negócios?
- Sim.
- E, por isso, o senhor quer licença para acabar com elas?
- Sim.
- Deixar elas fazerem o serviço não seria mais natural?
- Para mim, não.
- Mas, da sua parte, isso é uma mina de sem-vergonhice!
Dizendo isso, sacou do bolso de trás um alentado talonário de multas e, além de uma também alentada sanção, em letras garrafais, escreveu para a posteridade:
MELHOR SER SURDO QUE OUVIR DE ANDORINHAS E VENENO POR PARTE DE ZOZÓ DA ZEZÉ
Assinou e datou:
Paulo-fiscal, em 10 de outubro de 1980.
O veneno acabou vencendo os insetos. Por conta desse particular, hoje as andorinhas passam bem alto por sobre a cidade. Quem sabe para onde vão?
 
Quem se importa para onde possam ir?
 
Infelizmente, a história é verdadeira. Os comerciantes de agrotóxico entravam em desespero com a chegada das andorinhas. Durante a invernada destas aves, os agricultores praticamente não usavam veneno em suas propriedades. As vendas caíam e, por isso, os vendedores tentavam, a todo custo, expulsá-las. Acabaram por conseguir.
 
Hoje, as vendas prosperam.
 
Luiz Eduardo Cheida é médico, deputado estadual e presidente da Comissão de Ecologia e Meio Ambiente da Assembléia Legislativa do Paraná. Foi prefeito de Londrina, Secretário de Estado do Meio Ambiente, membro titular do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) e do Conselho Nacional de Recursos Hídricos.
sinto-me:
publicado por momentoskatia às 13:04

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